Um fragmento de âmbar com 99 milhões de anos revelou dois insetos fossilizados infectados pelo fungo zumbi cordyceps. Essa descoberta traz mais informações sobre o modo como esses fungos parasitavam seus hospedeiros e indica que eles já eram predadores de insetos na época dos dinossauros.
O estudo foi publicado na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, aprofundando o conhecimento sobre a interação entre fungos parasitas e insetos no passado remoto.
O âmbar, proveniente de mercados em Mianmar antes de 2017, tem cerca de 99 milhões de anos, ou seja, é contemporâneo dos dinossauros, que desapareceram há aproximadamente 66 milhões de anos. Isso sugere que o fungo zumbi conviveu com esses gigantes pré-históricos por mais de 30 milhões de anos.
Dentro do âmbar foram preservados uma mosca e uma formiga jovem, ambos infectados pelo fungo cordyceps, cujos frutos emergem da cabeça dos insetos, remetendo ao formato de cogumelos.
As espécies parasitas identificadas foram inéditas até então: na mosca, o fungo foi nomeado Paleoophiocordyceps ironomyiae, enquanto na formiga, Paleoophiocordyceps gerontoformicae. A identificação detalhada dessas espécies foi possível por meio de microscopia óptica e microtomografia computadorizada, que permitiram reconstruções tridimensionais dos insetos infectados.
Fósseis revelam como o fungo zumbi controlava insetos no passado
Atualmente, várias espécies do fungo cordyceps são conhecidas por infectar insetos como formigas, moscas e aranhas, manipulando o comportamento dos hospedeiros para benefício próprio. Por isso, esses fungos ficaram popularmente conhecidos como fungos zumbis.
De acordo com Yuhui Zhuang, doutorando e autor do estudo, os fósseis indicam que esses fungos já atuavam como “predadores” de insetos no período Cretáceo, controlando populações de determinados grupos desde então.
No caso da formiga, o parasita invadia o cérebro do inseto ao penetrar em uma área mais frágil do exoesqueleto na cabeça, assumindo o controle do sistema nervoso e alterando o comportamento do hospedeiro, conforme explica o especialista Conrad Labandeira, do Museu Smithsonian, que não participou do estudo.
Labandeira aponta que as duas espécies Paleoophiocordyceps identificadas provavelmente tinham mecanismos de infecção similares aos fungos atuais. Essa visão é corroborada por João Araújo, coautor da pesquisa, que acredita que o fungo encontrado no âmbar seja ancestral das espécies modernas de cordyceps.
Além disso, Araújo sugere que a mosca e a formiga foram mortas pelo fungo antes de ficarem presas na resina, o que permitiu a fossilização com a infecção ativa.
Diversidade perdida e importância ecológica do fungo zumbi
- Phil Barden, professor no Instituto de Tecnologia de Nova Jersey, destaca que a diversidade dos fungos parasitas diminuiu ao longo do tempo, embora tenham desempenhado papel fundamental na evolução dos ecossistemas terrestres;
- O fóssil encontrado oferece pistas valiosas sobre como essas espécies parasitas funcionavam e interagiam com seus hospedeiros no passado;
- Segundo Zhuang, esse tipo de achado possibilita visualizar as antigas relações ecológicas e comportamentais preservadas em fósseis;
Essas descobertas ampliam nossa compreensão sobre a coevolução entre parasitas e insetos, além de revelar a longa história dos fungos zumbis no controle populacional de insetos e na dinâmica dos ecossistemas desde a era dos dinossauros.